[ momentos ]
:: o tempo
nunca acreditei no tempo.
chamem-me o que quiserem, mas o tempo é apenas uma forma de nos atrasarmos todos uns em relação aos outros. antes de tudo, a fórmula por que é encontrado o tempo é um pecaminoso ultraje egocêntrico. como se pode apurar o tempo a partir da rotação da Terra?
é quase tão segregador quanto quando se pensava que a Terra era o centro de tudo, quando não passa de um insignificante objecto periférico. se tem de ser um planeta a decidir o tempo, eu quero que o meu tempo seja o de Plutão, um planeta tímido, que não se importa de ser o último da lista.
e porque tem de ser um movimento de rotação?
não porque seja básico, é apenas cíclico. sempre gostei de ângulos rectos. se tenho de me guiar por alguma coisa, que seja algo que ande em ângulo recto.
é terrível poder escolher religião, partido, nacionalidade, profissão, prato favorito, cor das meias, azulejos da casa de banho, gasolina 98 ou 95, papel higiénico folha única, dupla ou tripla, tamanho do nariz, tampão ou penso, as pedras que se pisam, a chuva que se apanha e não poder escolher a medida de tempo que toda a vida nos vai limitar a existência.. '
'adaptado do amigo manel aka diospiro joyeux
:: red
gosto de peixes vermelhos.
o primeiro inquilino do T2 foi um red fish e um vaso transparente. a casa mesmo vazia ganhou vida.e decoração, com os seixos pretos da arrifana em fundo.
os peixes de água fria são o ideal para uma casa pequena: não deitam pêlos, nem cheiro, não fazem barulho, nem saem da área reservada. e o tratamento é simples. acima de tudo gosto da facilidade de os ter por perto. não complicam. se estou desligado, fazem apenas parte da decoração. se tiver mais virado para a interacção, basta chegar perto do vasoquário e eles pulam direitos ao vidro numa dança calma, como se tivesse estado sempre por perto.
é importante esta qualidade que alguns 'seres' possuem: a facilidade de estar por perto.
como os amigos irmãos, aqueles que são quase família, mas sem laços de sangue. é fácil tê-los por perto; adaptam-se às circunstâncias e facilitam a vida de quem com eles convivem.
numa festa, num jantar, num encontro, se tivermos de prestar atenção a outras pessoas, os amigos irmãos sabem gerir o seu espaço, encontram conversa com alguém, distraem-se, riem-se, ocupam-se. decoram, numa forma muito positiva do termo: dão cor e vida aos momentos.
podemos estar na mesma sala, não falarmos horas, não conseguirmos trocar um olhar sequer, mas quando por momentos nos cruzamos, basta um toque, uma palavra, para saber que estão lá, atentos, disponíveis como sempre, para hoje, ou para outro dia, se hoje for complicado.
sabemos sempre que mais longe ou mais perto, mais próximos ou mais distantes, o momento em que conseguirmos falar, será apenas a continuação da conversa do ultimo encontro. com estas deliciosas criaturas a saudade não tem a ver com a distância, ou a ausência, mas apenas com a falta de tempo para as viver mais.
:: millôr
- pensei que se vangloriava de ter comido cinco mil mulheres?
imagina!, imagina. as pessoas assumem as coisas pelo lado vulgar. não estou interessado, nem nunca estive, em ser atleta sexual. o meu interesse foi sempre, e consegui isso inúmeras vezes, comer a alma da mulher..
- amigas é um eufemismo para dizer lovers? amantes.
amantes durante um certo período, sem nenhuma promessa de fixação, de casamento. chega um momento em que uma pessoa se cansa, naturlamente, porque aparece um mais curioso, um mais bonito. sofre-se. mas para um pessoa como eu, acha que isso faz parte do jogo
- sofre por amor? cansa-se do outro?
amantes durante um certo período, sem nenhuma promessa de fixação, de casamento. chega um momento em que uma pessoa se cansa, naturlamente, porque aparece um mais curioso, um mais bonito. sofre-se. mas para um pessoa como eu, acha que isso faz parte do jogo. sofrer por amor so existe quando a pessoa, de uma forma ou de outra é abandonado. agora cansar-se do outro, é universal. não há hipótese. eu tenho uma frase que é muito aplicada a isso: como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos muito bem!!
- fala de solidão. mas sempre andou muito bem acompanhado..
eu não sou conquistador. não sou mesmo. ou por outra, sou conquistador, quando estando diante de uma mulher me sinto atraído e sem querer faço gracinha, sem querer sou interessante..
vou te contar uma historia: eu estava em Roma, na casa de uns amigos. algumas semanas depois, a mulher do meu amigo pegou no avião e veio para cá, para se entregar a mim. pensa que é uma doidivanas, uma louca? pensa que fiz alguma graça especial? não, eu estava lá, simplesmente vivendo.
' millôr fernandes, um brasileiro único. partiu na semana passada: rip millô.
entrevistado por anabela mota ribeiro. WEEKend 24.out.2mil8 (jornal negócios)
:: lx feels like
um corredor liga as duas sala e o pequeno jardim interior.
os diferentes cenários tem algo em comum, quase imperceptível.
o papel parede 'vintage' traz charme. os tons pastel sossegam.
entre longas leituras, a devorar as sandes XL e o batido royale..
royale café, chiado
os diferentes cenários tem algo em comum, quase imperceptível.
o papel parede 'vintage' traz charme. os tons pastel sossegam.
entre longas leituras, a devorar as sandes XL e o batido royale..
royale café, chiado
:: doce pingo
mayday, pingo doce: foi uma imagem de confusão e histerismo. sim, foi.
então e o lançamento de qualquer iCoisa? e os dias de saldos na Zara? ou os voucher do Ikea para os primeiros 50 clientes, ou o lançamento da colecção Versace da H&M..
ahh, e os britânicos saldos no Harrods?
aí já não é falta de civismo, irracionalidade, mesquinhez, país atrasado? ai é fashion, e divertido! neste caso, como é o pingo doce, e (à partida) bens de maior necessidade, já se subverteu o pensamento, que se quer simples: o consumidor compra pela vantagem competitiva. os que foram ao pingo doce porque é mais barato. os que vão ao primeiro dia do iphone, para serem os primeiros. sujeitam-se às mesmas 'humilhações', e pelo mesmo motivo: a vantagem/necessidade individual.
em termos comerciais deve ter sido brutal: início do mês, contas com salários, devem ter feito tesouraria por 3 semanas, e a concorrência deve andar vazia esta semana (deve doer aos belmiros). quanto ao buzz, nem se fala. zero de comunicação paga: tudo viral, gratuito e passa palavra. simples. portanto funcionou!!
claro, que na pele dos senhores de verde e preto, com voz melosa, tinha escolhido outro feriado (era óbvio - e escusado - proporcionarem o aproveitamento politico), e organizado a estrutura de forma mais ordeira. já agora associava 2% da receita a uma causa social. cinismo, mas fica bem e cala as criticas, como em todas as outras campanhas do tipo. e as causas agradecem.
ps: o argumento que acho mais infundado: não se pode trabalhar no 1º de Maio? então e todas as pessoas empregadas na indústria do lazer (hotelaria, restauração, cinemas), ou de segurança (policia, saúde), que trabalham - especialmente - todos os fins de semana e feriados do ano.. pois, sei o que é isso.
:: travelers
_ We're probably the first tourists they've had since the war.
_ Tunner, we're not tourists. We're travelers.
_ Oh. What's the difference?
_ A tourist is someone who thinks about going home the moment they arrive, Tunner.
... Whereas a traveler might not come back at all..'
' diálogo de Kit Moresby, no filme The Sheltering Sky, de Bernardo Bertolucci.
:: sossegar
gosto de sossegar como verbo transitivo. sossegar só por si não chega.
é mais bonito sossegar alguém.
quando se pede "sossega o meu coração" e se consegue sossegar. quando se sai, quando se faz um esforço para sossegar alguém. e não é adormecendo ou tranquilizando, em jeito de médico a dar um sedativo, que se sossega uma pessoa. é enchendo-lhe a alma de amor, confiança, alegria, esperança e tudo o mais que é o presente a tornar-se de repente futuro. é o futuro que sossega. "Amanhã vamos passear" sossega mais que "Não te preocupes" ou "Deixa lá, que eu trato disso".
sossegar não é dormir. é viver. uma pessoa sossegada é capaz de deitar abaixo uma floresta. o sossego não é um descanso - é uma força. não é estar isolado e longe, deixado em paz - é estar determinado no meio do turbilhão da vida. sossegar é saber com que se conta, desde o azul do céu aos irmãos. o coração sossega em quem se conhece. não há falinhas mansas que tragam o sossego dos gritos de uma pessoa com quem se pode contar. é um alívio.'
este é um dos textos do MEC que fica para sempre. e que se aplicam na vida (mais que) real. ainda este fim-semana se aplicou: foi só com o futuro, com o plano para o dia depois, é que consegui sossegar quem queria.
:: mais-que-imperfeito
vejo os ícones dos 'conteúdos' media como uma tentativa de impingir um sócio-perfil ideal: todos temos de ser perfeitos. por exemplo, nos policiais, voto contra os policias, detectives, adivinhos, escritores e afins que sabem sempre tudo sobre os crimes mais estúpidos, brutais e parvos. sou contra os criminosos que se deixam sempre apanhar com as pistas mais óbvias. os maus que são sempre burros, os bons que acertam sempre o palpite mais impensável.
gostava mais, muito mais, dos blues de hill street: venham de lá os antigos carros azuis, a cair aos bocados, os policias bons da fita, mas que mesmo assim falhavam tantas vezes como erravam, que não sabiam de metade da poda, que se enganavam uns aos outros, que fuçavam contra os chefes, que se apaixonavam por relações impossíveis, que choravam baba e ranho, que eram feios, que não sabiam dizer nada no tempo certo. que eram reais! daqueles 'conteúdos' que não precisavam de truques de cor e imagem, mas que por serem tão crus, eram bem mais parecidos com a vida. como o que somos. como o que apanhamos todos os dias pela frente.
raios partam os idealistas que querem vender-nos a perfeição como o ícone desejado. eu gosto de pessoas que erram, com defeitos e manias - mas que são pessoas. basta-me que sejam verdadeiras, que assumam o erro, e que voltem a tentar, sem receios. pessoas que sejam empreendedoras porque o sentem lá de dentro e não porque simplesmente agora fica bem. já não há paciência para os 'novos lideres' formados em fornalhas, cheios de pseudo soft skills empacotadas, já com os livros todos de auto-ajuda papados. bullshit! é que - tal como nas séries da moda - tudo isto não passa de cenário.. vai-se a ver o conteúdo, e nada. vazio completo.
ps: um dia destes arranjo um teste de personalidade que reconheça a humildade, o humor e a inteligência. aposto que os resultados de perfil serão os opostos da prepotência, do auto-convencimento e da chico-espertice.
:: maresia
maresia: le odeur de la mer
gosto de vilas piscatórias. daquelas verdadeiras, que ainda tem barcos e pescadores, que ainda se cheira a maresia e a peixe fresco. em que as gaivotas acordam o dia. dessas vilas em que o mar está sempre perto: na paisagem, nas conversas, no trabalho e no prazer. quando preciso de descanso, do puro, uma vila piscatória é o meu paraíso, especialmente nestes invernos quentes. que tenha praias desertas, ruas semi-vazias, um silêncio sepulcral e paisagens a toda a vista, por entre estradas de terra e escarpas sobre o mar. das que se fica com o gosto do sal na pele e com aquele ardor nos olhos, do brilho do sol reflectido no oceano.
porque depois de mergulhado em agendas, computadores, imaquinas de todo o tipo, telemóveis a rodos, pressões, pressas e apressados, nada sabe melhor que parar. literalmente. desligar o botão, deixar o corpo em auto-gestão: viver ao ritmo do sol, ao som das ondas, desfrutar a comida, a leitura, a companhia. sem urgências, sem horários. caminhar. pôr os sentidos em ordem.
gosto particularmente de uma dessas vilas, em que posso acordar em cima do porto, a ouvir os barcos de pesca a sair de manhã, lentamente, quase veludo a deslizar na água. nesta vila tem-se ainda o prazer absoluto - e geograficamente único - de ver, no mesmo mar, o nascer e o pôr do sol..
já me cheira a maresia, e ainda nem saí da sala.
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